3.3.3 Concepções
e práticas dos estudantes-professores/as sobre a Proposta Triangular
Que
concepções prévias de propostas de ensino podem ter estudantes de licenciatura
já atuante como professores? No caso desta pesquisa, quais são as concepções prévias
que os/as estudantes-professores/as entrevistados têm da Proposta Triangular para
o ensino de arte? Ouviram falar da proposta antes de ingressarem na faculdade?
Dentre os/as estudantes-professores/as entrevistados nesta pesquisa, duas afirmaram
ter ouvido falar: Raquel e Clésia
Raquel,
cuja prática se apoiava constantemente em manifestações artísticas, conheceu a
Proposta Triangular (então Metodologia Triangular) por intermédio de sua
coordenadora:
Ela [a coordenadora] me falou a primeira vez em
Ana Mae Barbosa. Quando viu meu trabalho, trazia [textos
de] Ana Mae e, às vezes,
me explicava as coisas
que eu
estava fazendo. A proposta, por exemplo: se
eu estava explorando uma imagem com as crianças, a partir da obra de arte, então ela
falava na proposta de Ana Mae; só que ela usava o
termo Metodologia
Triangular.
Clésia conheceu o termo Proposta Triangular num dos cursos
que fez no cefor.[1]
Mas comenta: “não
pus tanta
ênfase no negócio,
não!”. Só
na faculdade ela
iria se aprofundar na metodologia
de ensino de arte
e saber um pouco mais sobre essa proposta.
Embora tenha feito
o curso técnico
de Educação Artística
no Conservatório Estadual de Música Renato Frateschi, em
Uberaba, Tininha disse que não ouviu falar: “ouvi mesmo só na faculdade. [...] No conservatório,
se foi falado, foi de uma outra forma, não exatamente assim. Mas eu acho que
está meio englobado. A gente vai trabalhando e vai modificando as palavras”.
Também Mizac não
ouviu falar da Proposta
Triangular antes
de cursar a licenciatura
em Educação
Artística/Artes
Visuais. Ele,
de fato, freqüentou outros
cursos, mas
nenhum era
relativo à Educação.[2]
Foi nessa licenciatura que tomou contato:
“A proposta, eu
vim a ter contato
com ela
na faculdade. Me
familiarizei com o termo
na faculdade”.
Clésia sintetizou sua
concepção de Proposta Triangular assim: “[...] é o fazer arte, o pensar e o
sentir”. Ela continua sua explicação enfatizando a contextualização:
A gente tem um contexto [para embasar] alguma obra, contextualizando o que ela é,
quando que ela surgiu, o que é que ela tenta passar para a gente, o conteúdo; e
diante deste contexto a gente tenta levar para o nosso cotidiano, para o
dia-a-dia, para o nosso contexto e [direcionar] até a releitura.
Clésia mostrou uma pasta com registro de trabalho cujo desenvolvimento
fez uso da proposta.
A pasta contém o projeto,
fotos e relatórios
sobre o desenvolvimento
do trabalho. Educação
não formal,
o projeto se chama
“Modelarte: modelagem em argila” (anexo e) e se desenvolveu
na Associação de Bairro
Grupo Amigos
da Água, com
sede em
Uberaba, no bairro Valim de Melo. Integrou
o programa de estágio
do curso de licenciatura
em Educação
Artística/Artes
Visuais do cesube, com duração
de 40 horas, e foi realizado às
quintas-feiras e aos sábados. O público-alvo
eram pré-adolescentes e adolescentes matriculados
nas séries entre
quinta e oitava.
As aulas de modelagem ocorreram no galpão da associação.

figura 3. Galpão da Associação
de Bairro Grupo
Amigos da Água
Fonte: Acervo
de Clésia.

figura 4. Alunos de Clésia
nas atividades de modelagem
Fonte: Acervo de
Clésia.
Clésia prefere argila como recurso para suas aulas por ser um material de baixo custo e fácil de conseguir. Dentre seus objetivos, está reconhecer
a importância da argila
na vida das pessoas,
pois é empregada
“[...] desde a Antigüidade e atualmente como
material de grande
utilidade sob
a forma de peças
utilitárias ou decorativas”. Outro objetivo
é buscar informações
sobre arte entre artistas
e em documentos,
acervos no espaço
escolar e fora
dele (cartazes, discos,
ilustrações, jornais,
livros, revistas
e vídeos) e acervos
públicos (bibliotecas,
cinematecas, centros de cultura, fonotecas,
galerias, museus
e videotecas) para
organizá-las e, assim, reconhecer
e compreender produtos
artísticos e concepções
estéticas história
das diferentes culturas
e etnias.
O projeto
deixa entrever a preocupação de Clésia com a leitura e o contato com obras e
objetos artísticos. Seus objetivos são: “[...] apreciar, desfrutar e julgar os
bens artísticos de distintos povos e culturas produzidas ao longo da história e
na contemporaneidade”. O projeto menciona, ainda, o trabalho com a auto-estima
e o desenvolvimento de habilidades “adormecidas”; para tanto, estabelece como
meta a reconstrução da identidade pessoal e social dos alunos envolvidos. Vale notar,
na fala de Clésia a propósito do projeto, uma concepção de arte ainda romântica
— “despertar a arte” — e a identificação desta como artefato social.
Na metodologia
descrita, Clésia inicia sua aula com uma “roda de conversa” (aula expositiva
dialogada), na qual apresenta aos alunos imagens (figs. 5, 6, 7) que
poderão ser referência
para o trabalho que ela lhes propõe realizar.

figura 5. Cerâmicas de Mestre Vitalino
Fonte:
Acervo de Clésia.

figura 6. Vitalino Santos, o Mestre Vitalino
Fonte: Acervo de
Clésia.

figura 7. Arte asteca
Fonte: Acervo de
Clésia.

figura 8. Cerâmica do
uberabense Hélio Siqueira
Fonte: Acervo de
Clésia.
Nessa metodologia, Clésia
procura introduzir algum conceito (expressão, relevo, volume, textura, dentre outros)
e contextualizar as imagens no tempo histórico em que foram produzidas. Num relatório
sobre o desenvolvimento do projeto contidos em sua pasta, ela diz que, ao
perceber a semelhança do trabalho de um aluno com a expressão da arte egípcia, trouxe
para a sala de aula imagens referentes a essa produção artística. Assim, Clésia
apresenta aos alunos reproduções de um número variado de estilos e expressões
tridimensionais: arte pré-colombiana, arte egípcia e a cerâmica brasileira de
Mestre Vitalino. Ela usa imagens de artistas consagrados como Rodin e de outros
menos conhecidos como Cláudio Aun (que ela achou numa revista de empresa
aérea). A maioria das imagens são reproduções em papel, recortes de revistas ou
xerocópias coloridas de livros ou enciclopédias organizadas numa pasta, que ela
apresenta aos alunos e deixa à disposição deles para que a manipulem quando
quiserem.

figura 9. Aluna
de Clésia exibe peça modelada por ela.
Fonte: Acervo de Clésia.
Clésia
se preocupa com mostrar
a produção de Uberaba, reunindo reproduções
de obras desses artistas
(fig. 10). Ela promoveu, ainda, uma visita
à Casa do Artesão,
onde Cláudio Destro
expunha seus trabalhos
modelados em argila. Para ela,
o contato com
obras originais
é importante, sobretudo
quanto às tridimensionais,
pois a fotografia
capta só um
ângulo de visão
da obra.

figura 10. Alunos de Clésia em
visita à Casa
do Artesão
Fonte: Acervo de
Clésia.
O
projeto finaliza com a exposição dos trabalhos produzidos pelos alunos no cemea, onde Clésia trabalha como educadora. Ela faz questão de que a família dos
alunos vá à exposição.

figura 11. Exposição de
peças modeladas por alunos de Clésia.
Fonte:
Acervo de Clésia.
Na prática educativa de
Clésia, a Proposta Triangular
se expressa no projeto
pelas palavras: “[...] levando imagens feitas em diferentes épocas, estilos
e culturas, relacionando as atividades propostas,
fazendo o triângulo de Ana Mae Barbosa, situando-os no tempo,
diversificando as vivências do grupo e desafiando-os para
a produção no barro”.
Também se expressa
nas ações direcionadas aos alunos: leitura
de imagem, fazer
artístico e contextualização. A prática como prioridade é comum
nas atividades de ateliê[3]
na educação não
formal desenvolvidas pela maioria
das pessoas. Clésia, também, enfatiza a prática;
mas, diferentemente,
preocupa-se em trazer
informações sobre
a arte e a produção
cultural de diferentes povos. Ela argumenta que desenvolveu o projeto
“[...] a partir da Proposta
Triangular, dando ênfase
à modelagem em argila
[e procurando] desenvolver um
olhar diferente
sobre a modelagem”. Afirma ela: “[...] a cada
encontro, conversávamos sobre o trabalho tridimensional de artistas,
levando reproduções para
eles apreciarem”. Assim,
Clésia acredita que está “[...]
ampliando o conhecimento de mundo [de seus alunos]” e que,
quanto mais
amplo forem os conhecimentos,
maior será a capacidade
de percepção e interpretação
do mundo contemporâneo.
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