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ESTUDANTES-PROFESSORES/AS E A PROPOSTA TRIANGULAR
Para concretizar
a parte empírica
desta pesquisa, optei por procedimentos metodológicos qualitativos.
Conforme Menga Lüdke e Marli André, a pesquisa qualitativa
“[...] tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados
e o pesquisador como
seu principal
instrumento” (lüdke; andré, 1986, p. 11). Também
chamada de estudo
naturalístico, pelo contato
direto do pesquisador
com o ambiente,
ela privilegia dados
descritivos, pois “o interesse
do pesquisador, ao estudar
um determinado
problema, é verificar
como ele
se manifesta nas atividades,
nos procedimentos e nas interações cotidianas” (lüdke; andré, 1986, p. 12). Os significados que
as pessoas dão às coisas
em sua
vida são
focos de atenção
do pesquisador; e a análise
dos dados tende a ser
indutiva: a comprovação
de hipóteses não
é preocupação.
Trata-se
de um estudo
de caso, pois
a pesquisa parte
de um estudo
aprofundado de uma unidade com complexidade e dinamismo
próprios. O estudo
de caso se enquadra nos
meus propósitos
como pesquisadora porque
busca “[...] o conhecimento
do particular, [os dados]
são descritivos, indutivos
e buscam a totalidade. Além
disto, são mais
preocupados com a compreensão
e a descrição do processo
do que com
os resultados comportamentais” (andré, 1995, p. 51).
Para coletar
os dados, recorri a questionários
(apêndices
a, b e c), entrevistas
semi-estruturadas (apêndice d) e análise
documental.
3.1 Cenário
Os sujeitos da pesquisa
estudam no Centro de Ensino Superior (cesube), ex-Faculdade
de Educação de Uberaba (feu). Criado para suprir a carência
de cursos de licenciatura
em Uberaba (mg), sua graduação atual oferece sete
cursos: Ciências
Biológicas, Ciências Sociais, Educação
Artística/Artes
Visuais, Educação
Física, Engenharia,
Geografia e Pedagogia.
A feu iniciou sua
trajetória em
1996, quando
a Secretaria Municipal de Educação de Uberaba (smed) tencionava, em
seus projetos,
desenvolver programas
para melhorar
a qualidade do ensino
pela capacitação
profissional do educador.
A faculdade é mantida pela
Fundação Municipal de Ensino Superior
de Uberaba (fumesu):
parte da verba
para manutenção
vem da prefeitura; outra
parte, das mensalidades
pagas por
alunos. Os primeiros
cursos oferecidos foram as licenciaturas em
Ciências Biológicas, Geografia e Pedagogia,
em 1999; em
2002, o curso de Educação Artística/Artes
Visuais e o de Ciências
Sociais tiveram seu
funcionamento autorizado. Até então, a maioria dos professores
atuantes no ensino
de arte em
Uberaba era formada em
Letras ou
no curso técnico
em Educação
Artística oferecido pelo
Conservatório Estadual de Música Renato Frateschi. Em
2002, dos profissionais
atuantes em
38 escolas estaduais, 34 municipais e 34
da rede de ensino
particular, cerca
de 10 eram habilitadas em Artes. Eis aí
a justificativa do projeto
pedagógico de criação
e instalação do curso
de Educação Artística/Artes Visuais na
antiga feu.
Essa situação ocorre em nossa região. Os professores de Arte
não-habilitados carecem de uma consciência clara de sua função e não contam com
uma fundamentação consistente em Arte como área de conhecimento, com conteúdos
específicos e metodologias próprias. (cesube,
2002, p. 4).
Autorizada pelo
Conselho Estadual de Educação de Minas (cee/mg), essa
licenciatura veio
atender a exigências
legais e suprir
as necessidades das escolas
de Uberaba e região. Com base em seu projeto pedagógico,
o curso objetiva
habilitar arte-educadores em
artes visuais
para atuar como docentes nos ensinos fundamental e médio.
Para tanto, garante
formação profissional
que os torne aptos
a atuarem no espaço escolar
e extra-escolar:
Esta formação integra Arte e Educação, voltando-se para o
desenvolvimento da percepção, da reflexão, do potencial criativo, do exercício
da sensibilidade e da aquisição de conhecimentos específicos nas linguagens
visuais. [...] Não pretende formar o artista atuante e reconhecido no mercado
como produtor de obras de arte, mas o professor que através de seus
conhecimentos a respeito da Arte e de sua historicidade e da vivência do fazer
artístico, possa exercer sua atividade pedagógica com competência. (cesube, 2002, p. 5).
O prédio
do cesube (fig. 1) se localiza numa avenida
que corta o parque
da Univerdecidade, bairro de Uberaba criado para abrigar
um parque
tecnológico, após
a ponte sobre
o rio Uberaba, a cinco
quilômetros do centro,
em frente
ao parque das Barrigudas.[1]
Como não
há outras construções no parque, a sede
do centro de ensino
fica quase isolada na Univerdecidade. Os
arredores baldios
exibem vegetação do cerrado;
à distância, Uberaba exibe seus edifícios —
feição urbana
do município. Simples,
o prédio tem quatro
blocos de alvenaria:
um comporta
a administração; outro,
a biblioteca e os laboratórios.
Os demais abrigam 16 salas de aula.
Ao fundo do terreno,
a cantina e o local
para fotocópias.
No fim de 2005, foram construídos três
blocos pequenos
com oito
salas de aula.
Canteiros ladeiam os corredores entre
as salas de aula;
mas a vegetação
é nova: ainda
não há uma árvore
que faça muita
sombra. A quase-ausência de intervenção humana
nos espaços
públicos sugere ocupação
recente do prédio.

figura 1.
Campus do cesube
Fonte: cesube, 2006.
O curso
de Educação Artística/Artes Visuais
ocupa duas oficinas (salas de aula
adaptadas) no bloco de laboratórios e algumas salas
de aula do primeiro
bloco. As oficinas
têm armários, bancadas,
cavaletes e pia.
Em 2006,
foi construída a sala de laboratório de fotografia,
numa oficina. O currículo
do curso se organiza em três eixos temáticos:
figura 2. Eixos temáticos
do curso Educação
Artística/Artes
Visuais do cesube
Fonte: cesube, 2002, p. 10.
Os eixos
são complementares,
para haver interligação entre fundamentação
do saber artístico
e processos metodológicos básicos do aprendizado
de como ensinar
arte. No eixo
“Expressão em
diferentes linguagens”
(quadro 1), as disciplinas
estão ligadas à pesquisa
e experimentação de materiais artísticos e a procedimentos e técnicas
diversificadas empregadas na produção de formas visuais. As disciplinas
desse eixo objetivam construir
uma atitude de busca
pessoal/coletiva
que articule percepção,
imaginação, sensibilidade
e reflexão na produção
e apreciação da arte, em
suas diferentes
formas de presença
no mundo natural
e cultural.
Os conteúdos
curriculares do eixo “Fundamentos humano-científicos” (quadro
2) se voltam à reflexão sobre a arte como objeto de conhecimento e à percepção
do objeto artístico
como fato
histórico contextualizado em diferentes culturas, diferentes
espaços/tempos
e em suas
diferentes manifestações
que integram a cultura
popular e erudita,
os meios de comunicação
e as novas tecnologias.
quadro 1
Eixo “Expressão em diferentes linguagens”
disciplinas
|
linguagem
específica
|
Expressão artística i
|
Desenho e pintura
|
Expressão artística ii
|
Gravura
|
Expressão artística iii
|
História em quadrinhos
|
Expressão artística iv
|
Escultura
|
Expressão artística v
|
Fotografia e cinema
|
Expressão artística vi
|
Arte contemporânea
|
Oficina de criatividade i
|
Música
|
Oficina de criatividade ii
|
Teatro e expressão corporal
|
Oficina de criatividade iii
|
Oficina de materiais
|
Leitura e produção de textos
|
Produção literária
|
Computação em arte
|
Informática aplicada às artes
|
Fonte: cesube, 2002, p. 18.
quadro 2
Eixo “Fundamentos
humano-científicos”
disciplinas
|
Estética
e história da arte i
|
Estética
e história da arte ii
|
Estética
e história da arte iii
|
Folclore
|
Estudo
da forma e da composição
|
Métodos
e técnicas de pesquisa
|
Fundamentos
da arte educação
|
Fonte: cesube, 2002, p. 18.
No eixo
“Práxis pedagógica”,
os conteúdos visam formar
arte-educadores que compreendam o sujeito que aprende para preservar e impulsionar
sua dinâmica
de desenvolvimento e aprendizagem, assim como oportunizar
a construção de sua
autonomia. Através
de metodologias e recursos
didáticos e da valorização de aspectos expressivos
e construtivos do percurso criador, o futuro
arte-educador vivencia atividades
voltadas à sua formação
profissional em
práticas profissionais
vinculadas a diferentes eixos temáticos
e através do Estágio
Curricular Supervisionado.
quadro 3
Eixo “Práxis pedagógica”
disciplinas
|
Psicologia da educação
|
Didática
|
Estrutura e funcionamento
do ensino fundamental e médio
|
Metodologia do ensino da
arte
|
Pesquisa e construção do
conhecimento e trabalho de conclusão de curso
|
Estágio supervisionado i e ii
|
Prática Profissional i, ii e iii
|
Fonte: cesube, 2002, p. 18.
No projeto pedagógico
do curso de Educação
Artística/Artes
Visuais, a integração
dos três eixos
ocorre na proposta metodológica. O projeto “[...] entende que
uma metodologia de trabalho
centralizada em competências
passa necessariamente pela contextualização da aprendizagem, como elemento gerador de significado
e de motivação” (cesube, 2002, p. 13).
Noutras palavras, entende-se que
não é possível
promover a formação
do professor de Arte sem se organizarem, dentro
e fora do espaço
escolar, momentos
de socialização de conhecimentos, experiências e contato
com a cultura,
não apenas
quanto às expressões
artísticas, mas também
em relação
aos elementos que
ampliem a compreensão do espaço social
no qual e para
o qual o aluno
se forma.
Seminários de integração,
como momentos
privilegiados da relação
interdisciplinar dos conteúdos; Oficinas, nas quais
o estímulo aos processos
de investigação e criação
possa fazer emergir e amadurecer uma linguagem
pessoal; Grupos
de estudo, que
possam permitir o aprofundamento em questões ligadas à arte e à educação, através
de processos de aprendizagem
compartilhada; Programação de exposições e outros
eventos científicos
e culturais que possam oportunizar atuações diferenciadas, variados percursos de
aprendizagem e a vivência de modos diversificados de organização
do trabalho profissional;
Socialização de projetos de pesquisa que
possam fomentar a discussão,
o debate, o pensamento
científico e a motivação pela investigação;
Atividades de campo
que contemplem visitas
a museus, exposições
artísticas, ateliês e centros de formação
em Arte, além da realização
de convênios para
participação dos alunos nesses espaços existentes na cidade,
a fim de oportunizar maior amplitude
em sua
formação pedagógico-artística. Produção de monografia
e de projeto de curso
relacionado às artes visuais nos quais o aluno
possa demonstrar o seu
processo de construção de
conhecimentos e competências. (cesube, 2002, p. 14).
No projeto inicial do
curso, a matriz curricular previa a integralização de conteúdos em quatro anos;
mas um ajuste na matriz curricular (ver anexo a) em agosto de 2004 reduziu esse
prazo para três anos.
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