Este texto também estava nos arquivos...
Ele é de fevereiro de 2004.
Boa leitura!
ARTE
E LOUCURA
“A verdade é que arte
e loucura, com freqüência, andam juntas, de mãos dadas”.
Frederico
Morais – 1992
A arte é tão antiga
quanto o homem. É um processo de trabalho, um processo de transformação, uma
linguagem da sensibilidade humana. Ela se origina de uma necessidade
coletiva.
Desde a idade da
pedra, o individuo feiticeiro, mágico ou artista, era quem plasmava as
palavras, as pinturas nas cavernas e as canções. Esse artista, da pré-história, tem uma função
especial: a magia sobre a natureza para o fortalecimento da coletividade.
Na proporção direta
em que a sociedade se distancia da vida em harmonia com a natureza, a
verdadeira condição humana, o homem cada vez mais se fragmenta. O
equilíbrio entre individuo e mundo exterior vai sendo perturbado, rompido.
O desejo do homem
de se completar, absorver o mundo, integra-lo a si, preencher sua limitada
existência, faz com que a arte se torne imprescindível: um caminho para a
plenitude.
O
homem necessita da arte independentemente de sua sanidade mental.
A
loucura acontece entre os homens, isto é, o engendra na sociedade. O louco é o
inadaptado à ordem social vigente. Eles pensam, sentem e agem desafiando os
padrões de convivência.
Freqüentemente
o individuo sente-se acossado de tal maneira no mundo externo, que encontra
saída somente na porta da loucura.
Humilhados e ofendidos não conseguem por meios próprios, chegar a uma
compreensão das contradições e supera-las para alcançar uma nova serenidade,
recompor-se com tranqüilidade. A volta para a vida “normal” é muito
difícil, muito mais difícil devido a não
aceitação do seu mundo interno onde agora se encontra e também pela maioria daqueles com que
convive. Aqui, arte pode ser um caminho de volta.
A
arte com sua dinâmica de criação e transformação quebra regras, busca o novo, o
inusitado, até mesmo o que não é normal. Um exemplo é Vincent Van Gogh, um
artista, um homem em busca de sua identidade, em busca de uma arte inovadora,
em busca da cor portadora de sua expressão individual, de sua imaginação, a cor
da realidade da sua psique, vai contra todos os preceitos de uma época ! A
sociedade o recrimina. Ele corta sua orelha já em delírio.
Como essa há
inúmeras histórias de artistas que foram considerados loucos ou realmente
enlouqueceram: Camile Claudel, Frida
Khalo...
O que não dizer
então do artista da nossa época que, na leitura da sociedade contemporânea,
muitas vezes é associado a um louco. Sua arte tenta romper com os modelos
anteriores pois propõe soluções nada “normais” para os que os querem normóides.
Faces da arte e da
loucura !
Ah!
Esta nossa época tão conturbada! Será que ela não empurra o individuo para a
loucura?
Não será loucura
atirar um avião contra um prédio matando mais de 3.000 pessoas ? (atentado de 11 de setembro nos Estados
Unidos )
Não será loucura
invadir um país , matar crianças, mulheres e homens , com a justificativa de
que se sente ameaçado ? ( invasão do Afeganistão e do Iraque pelos Estados
Unidos )
Não será loucura
trabalhar tanto sem ter lazer ?
Será loucura querer
que todas as pessoas sejam tratadas como iguais ?
Será loucura falar
de tudo isso ?
Arte e delírio
caminham juntos por oceanos, estradas e céus... traduzem fragmentos, recortes
de guerras, crimes, caprichos...denunciam horrores, amores, paixões , sonhos
transmutam o inominável, o monstruoso sem beleza, em utopia.
Quem pode fazer arte ?
A imaginação é certamente uma faculdade que devemos
desenvolver, e só ela nos pode levar a criação de uma natureza mais exaltadora
e consoladora do que o rápido olhar para a realidade...
Vicent
Van Gogh
Os conceitos de ARTE acompanham as mudanças sociais e
históricas, antes, no dizer de Lukács a arte se constitui na prévia ideação da
evolução da humanidade.
A partir do século XX, a arte rompe com os padrões
clássicos, dando abertura para que o fazer artístico de crianças, loucos e
outras minorias, possam ter uma aproximação com o conceito acadêmico da
ARTE. A produção infantil pôde se vista
com menos preconceitos e também
possuidora de uma qualidade estética.
Em 1922, com o livro de Hans Prinzhorn, Expressões
da Loucura, uma série de trabalhos
de doentes mentais de instituições psiquiátricas é divulgada e reconhecida como
obras de qualidade artística . O valor
estético desses “loucos” começa então a ser reconhecido publicamente.
O pintor Jean Dubuffet , em 1945 inicia uma das mais importantes pesquisas
desenvolvidas na Europa. Cria o conceito de arte bruta que ele define
como “produções de toda espécie –
desenhos, pinturas, bordados, modelagens esculturas - que apresentam um caráter
espontâneo e fortemente inventivo, que nada devem aos padrões culturais da
arte, tendo feitos por autores pessoas obscuras, estranhas aos meios artísticos
profissionais.” Dubuffet não
esperava que a arte fosse normal. Ao
contrário , que fosse inédita, imprevista e extremamente imaginativa.
A Arte é, em
essência, uma só, não importa se feita por brancos, negros, índios,mulheres,
homossexuais, esquizofrênicos ou psicopatas.
“A loucura, em alguns aspectos, não destrói a
capacidade criadora. A loucura pode ser uma circunstância como o são a guerra,
a fome, a repressão política, o ambiente familiar ou as tradições culturais de
um pais. Uma circunstância capaz de impregnar o ato criador e de lhe dar
sentido. Por mais adversas que sejam estas circunstâncias, o instinto
criador do homem sobrevive.”
Frederico Morais - 1992
A introdução de Ateliês de Arte em Clinicas
Psiquiátricas
“A moldura da nossa mente é
infinita. Nosso inconsciente é pintado sem proibições. A vida não morre com as
perdas externas, mas com as internas.”
Sidney Alves
A
introdução de Ateliês de Pintura nas clínicas,
aconteceu no Brasil pela primeira vez com a psiquiatra Nise da
Silveira na Seção Terapêutica
Ocupacional de Centro Psiquiátrico Pedro II , no Rio de Janeiro .
Nise organizou, em
1946, ateliês de pintura e de modelagem pensando num tratamento mais humano
para os doentes esquizofrênicos do Centro Psiquiátrico. Quando o atelier foi
aberto tinha como monitor o artista
Almir Mavignier, hoje pintor de renome internacional e professor de arte. Sua
participação foi fundamental na história desse trabalho.
O
Centro Psiquiátrico tinha então 1500 (mil e quinhentos) internos, em sua
maioria esquizofrênicos crônicos, que normalmente ficavam abandonados no pátio
do hospital. Aos poucos a equipe de psicólogos, psiquiatras, e artistas
plásticos foi descobrindo um grupo de pessoas que tinha uma produção de
destaque.
A produção se
revelou de tão alta qualidade e com tal interesse científico que nasceu então a
idéia de organizar um espaço que reunisse a arte criada. Hoje, o Museu de
Imagens do Inconsciente tem mais de 300 (trezentos) mil documentos (telas,
pinturas, desenhos e investigações cientificas) e oferece ao pesquisador
condições para o estudo das imagens e símbolos, bem como a possibilidade de
acompanhar a evolução de casos clínicos. Diariamente são acrescentadas novas obras o que torna
este um museu vivo .
Com
este trabalho constata-se que a
esquizofrenia não atinge a criatividade ou a inteligência do doente. Combate
também a idéia de que os loucos são
seres embrutecidos e desprezíveis.
Através da expressividade das pinturas pode-se ver a riqueza da alma destas
pessoas rotuladas como embrutecidos.
O trabalho no
atelier do Centro Psiquiátrico é um acompanhamento durante e depois da criação,
onde o psicólogo e o artista estão sempre observando os temas, as cores e as
técnicas recorrentes.
“Não fazemos, no ateliê , uma apologia à loucura por
valorizarmos sua riqueza criativa. Nosso esforço é para que aceitem de forma
mais saudável e prazerosa tal condição mental”
Os terapeutas não
interpretam ou julgam as obras pintadas pelos esquizofrênicos. Ao contrário,
estimulam que o próprio artista o faça. “o que fazemos é oferecer-lhe um
acompanhamento” explica a psicóloga Maria Abdo. “O efeito da expressão
artística é mais imediato – pintando sua angustia, o esquizofrênico
despotencializa algumas emoções”
Nise da
Silveira nos dá prova de que loucura também produz arte e o louco consegue
meios para expandir sua sensibilidade.
Luta anti-manicomial
Por
uma sociedade sem manicômios !
No Brasil, a partir
da década de 70 ,nasce o Movimento
Nacional de Luta Anti Manicomial - um movimento da Reforma Psiquiátrica . Este
movimento se torna vitalizado e com visibilidade social, quando se caracteriza
pela desinstitucionalização, não como
sinônimo de des-hospitalizaçao, mas de transformação de saberes e práticas em
lidar com a loucura, trazendo a necessidade do atendimento
inter-transdiciplinar.
Nessas
considerações estão implícitas novas formas de relacionar em saúde mental,
abrindo o campo para outros profissionais, em destaque para os que lidam com
arte e o processo criativo, na busca de cuidados mais flexíveis e estimulantes.
Dentre estes, as Oficinas Terapêuticas de Arte surgem com complementação do
trabalho de reinserção social das
pessoas em sofrimento psíquico.
A arte
como processo de estimulo a criatividade, permite aos usuários a expressão e
comunicação de idéias e emoções, possibilitando o aumento de sua auto- estima e
a expansão emocional, diminuindo sua ansiedade.
O dia 18 de maio,
dia da Luta Anti-manicomial, é uma data nacional, ocorrendo desde 1995 em
Uberaba, com a participação efetiva da comunidade e profissionais da saúde.
Essa luta
consiste num ato de protesto para erradicar tratamentos obsoletos que em nada
auxiliam na melhora e auxílio ao enfermo mental. Choques elétricos,
confinamento e algemas eram alguns dos "métodos" utilizados. Em
alguns casos, executavam a famigerada lobotomia, operação no cérebro que
impossibilitava o indivíduo às reações, tornando-o uma espécie de
"morto-vivo", um ser em estado meramente vegetativo.
Nas questões
legais alguns ganhos tem sido feitos. A Lei Paulo Delgado prevê uma reforma nos
tratamentos psiquiátricos.
"A lei
anterior tratava o doente mental como um indivíduo de alta periculosidade,
quase um criminoso. Atualmente, através da nova legislação, novas propostas
foram oferecidas ao enfermo, resguardando sua integridade."
Este
assunto é muito atual, pois desde julho de 2003, esta em vigor a Lei 10.708 –
ou a “lei da volta para a casa” . Esta
lei é um auxílio-reabilitação para que pessoas internadas em hospitais ou
unidades psiquiátricas continuem seu tratamento em família.
A psicóloga Maria
de Fátima Caiedo, da Fundação Gregório Baremblit de Uberaba, afirmou que ainda
existem no Brasil cerca de 80 ( oitenta) mil doentes mentais trancafiados em
hospícios. “E o resultado é a quebra dos laços familiares, não há
possibilidade de uma reintegração do doente na sociedade”.
Fundação Gregório F. Baremblitt de Uberaba
A Fundação
Gregório Baremblitt de Uberaba foi instituída em 17 de julho de 1991 por uma
equipe de 11 (onze) profissionais, na maioria da área da saúde e religiosos,
mas enquanto instituição não se vincula
a nenhum deles.
É uma instituição sem fins lucrativos, e de
reconhecimento de Utilidade Pública Municipal e Estadual, de natureza laica, ou
seja, atende pessoas de todos os credos religiosos .
Com o objetivo
principal de promover atenção a pessoas em crise, através da equipe técnica
multidisciplinar composta de psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais,
enfermeiros, assistentes sociais, a Fundação trata de qualquer sujeito
acometido de intenso sofrimento psíquico, que requeira em algum momento de sua
existência, cuidados intensos.
Há todo um
trabalho medicamentoso, atividades e oficinas, psicoterapia e atenção à família
dos usuários e beneficiários.
O CAPS, que
recebe o nome de Projeto Maria Boneca, realiza acolhimentos, tratamentos e
reabilitação de portadores de transtornos mentais severos ( psicóticos,
esquizofrênicos e neuróticos graves ).
A maioria dos
usuários tem cuidados diários. Grande parte da clientela já passou por
tratamentos longos e em manicômios, com tratamentos desumanizantes como o uso
do choque elétrico e cela-forte.
Ao ser
internado, o doente mental perde oportunidade de trabalho, instrução e ate
mesmo de vínculos afetivos. Os conflitos familiares são uma constante.
A Assistente Social Gilda Crozara é presidente
da Associação dos Usuários, Familiares e Trabalhadores da Saúde. Segundo ela, a
participação da família é fundamental. "O Naps (Núcleo de Atenção
Psicossocial), promove reuniões mensais com a família para que haja um suporte
no tratamento do doente mental. Há uma participação efetiva. Inclusive na luta
antimanicomial estão engajados familiares, a população e várias instituições
como a Cria e a Associação Cristã de Assistência ao Doente Mental Pobre, que
atende crianças e adolescentes com distúrbios mentais, Secretaria Municipal da
Saúde dentre outras", relata. Não há confinamento nos muros da
instituição, já que esse método é ultrapassado.
A clínica
atende atualmente cerca de 160(cento e sessenta) pessoas.
O trabalho com arte no “Maria Boneca”
Que arte é essa ?
“Na arte
como nas relações humanas, que incluem os laços amorosos, nadamos contra a
correnteza”.
Lia Luft
O
trabalho de Oficina de Arte na Fundação G. Baremblit, iniciada neste ano,
volta-se para o atendimento, principalmente, de pessoas portadoras de
transtornos mentais severos, já que estas têm uma menor participação em outras
atividades que exigem habilidade motora e concentração.
O
trabalho com as cores na técnica da pintura foi bem recebido já que não
existiam limites rígidos a serem respeitados. Cada um fazia a escolha de tons e
matizes, executava a pintura de acordo com seu próprio tempo. Alguns elaboravam
mais o desenho, outros se atinham na mistura de tons. O objetivo era trabalhar
a individualidade e desenvolver um processo onde o participante se desenha,
expõe seus desejos, escolhe suas cores, garatuja ou escreve.
Aos
poucos, deitar no emborrachado, fazer o contorno do corpo e depois preenchê-lo
com cores, palavras, formas, foi diminuindo a ansiedade e envolvendo cada um no
prazer de usar o pincel sem ser recriminado. Na pintura não há erros e acertos.
Tudo é possível na criação. Corpos pintados de verde, mãos que se transformam
em pássaros, porta sem casa e um caminho que leva a lugar nenhum.
A mandala –
símbolo da unificação teorizada pelo psicólogo Carl Jung – se constituiu num
dos seus momentos, mas não ocorreu espontaneamente. Foi recebida com pleno
envolvimento e criatividade. Desenhos dentro do círculo, o círculo se
transformava...
O contato com
reproduções de obras de artistas trouxe momentos de contemplação, de beleza
surpreendentes. Retratos e auto-retratos. Quem é este que fuma, quem é este que
esta triste e parado, quem sou eu .
Para concluir
esta primeira etapa realizamos uma exposição de todos os trabalhos em local
público. Na abertura os artistas compareceram para ver suas obras exposta.
Quanto prazer em mostrar : esta pintura é minha, fui eu quem fiz ! Sorrisos
largos, pensamentos bem dentro de si mesmo.
A abertura que
o fazer artístico possibilita, permite que se fale indiretamente de seus
problemas, sua vida, seus sentimentos para com o mundo. Não houve e não há a intenção de leituras psicológicas. A
intenção foi, e é, de proporcionar este encontro, o encontro com a arte, tão
indispensável ao ser humano, hoje tão fragmentado . A arte com papel de
reconstrução.
Referência Bibliográfica
AGUILAR, Nelson. Mostra do
Redescobrimento . São Paulo : Associaçao Brsil 500 anos Artes Visuais – 2000
BICHUETTI, Jorge. Crisevida –
Outras lembranças . Belo Horizonte : Biblioteca do instituto Felix Guattari,
2000.
COLI, Jorge. O que é arte. São
Paulo : Editora Brasiliense – 1988
FICHER, Ernest. A necessidade da
Arte.São Paulo : Circulo do Livro – 1981
SILVEIRA, Nise . Imagens do
Inconsciente.Rio de Janeiro : Editorial Alhambra –1981
VAN GOGH, Vicent. Cartas a Theo –
Porto Alegre : L&PM – 1997
http://www.crpsp.org.br/a_acerv/jornal_crp/096/frames/fr_luta_antimanicomial.htm
http://www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/cidade/manicomio.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário